18 de julho de 2010

Havia sido um dia quente, assim como o dia anterior havia sido também, na verdade, todos os dias anteriores de que posso me lembrar foram de calor. E logo que a noite começou a cair fui recostar-me a janela. Não que esperasse alguém, mas isso não impedia que alguém viesse.

Nunca se vê gente por essas bandas, e pra minha surpresa, a gente que nunca vem, decidiu-se por vir toda de uma vez. Aproximavam-se as figuras, que ao longe indecifráveis tomavam forma, adquiriam feições à medida que seu andar cansado conduzia-os.

Eram três homem. Pousada e abrigo era o que pediam. Ofereci-lhes.

Divertido era perceber que diferia de um para outro aquilo de que mais tinham urgência.

O primeiro, aparentemente o mais velho, tinha o estômago a roncar, alta e frequentemente, reclamando aquilo que lhe era mais importante. Comeu e lembrou-se com saudades dos quitutes que a mulher que deixara fazia. Parecia que mesmo imaginários, os tais quitutes exalavam seu aroma que além das narinas, invadia também a sua boca fazendo-a salivar.

O segundo, indiscutivelmente mais jovem, incomodava-se com a imundice que trazia consigo, alarmava-se a cada sujeira ou inseto novo que encontrava. As sujeitas eram esfregadas com afinco, mas as danadas teimavam em ficar, os insetos eram por ele esmagados e perseguidos, vingando-se dele, porém com mais manchas, de seu sangue ou qualquer outra substância fétida liberada de seus pequeninos corpos. Banhou-se, teve as roupas lavadas e reparadas. Exalava o próprio cheiro com espanto, divertia-s agora, exibindo sua beleza limpa.

O terceiro, intermediário quanto à idade, segundo o meu achar, trazia certo fogo no olhar que deseja expandir pra todo o resto do corpo. Precisava de um corpo pequeno para fazer ferver o seu, de uma cintura fina para enlaçar e tomar para si. Aqueci-lhe.

Depois de revigoradas as forças e saciadas as fomes das mais variadas, seguiam viagem. Acenavam, agradeciam, mal sabendo que eu os maldizia por dentro: - Incompetentes! Ingratos! Inúteis!

Talvez nem fossem culpados, talvez a culpa fosse unicamente minha, que me iludia em achar que matar a fome daqueles homens me alimentaria também. É! Eu estava faminta. Talvez mais faminta que todos eles. Eu gemia, soluçava, tossia, gritava, miava, latia, mas ninguém me ouvia. Ninguém me ouve. Como se soasse externamente silencioso, aquilo que por dentro me ensurdecia.

E voltei a janela, sem esperar, só aceitar.

Precisava de revisão, de ser melhorado .. mas está aí. E peço que perdoem minha ausência, essa semana estarei tirando todo o meu atraso (=

5 curativo(s):

Maria Luíza. disse...

Que texto bom!
Grande, mas, ÓTIMO!

Rodrigo Cavaleiro disse...

Um texto apreciavel, mas só depois de ter confirmado ser conto...

O li algumas vezes por aqui, e agora eu seu bem o que é que está ai.
Beijo de cobrinha !

Nana disse...

Ai que dor!
Gostei muito da forma como você escreve!
Me prendeu muito a atenção que percebi o final como um susto haha, leitura boa de fazer!

Vou virar visitante constante, acredito...

Maria Luíza. disse...

Eii, tô com saudade disso daqui.
Tu nunca mais att, não faça isso.
Não dê esse castigo a nós seus leitores.

beeijos :*

Onde nem o céu seja o limite disse...

Achei a escrita impecável, o desenvolvimento brilhante e o conteúdo e tema de uma inteligência rara e absoluta. A gramática e a técnica que emprega nos seus textos é realmente apurada, assim como a arquitetura do texto em si.

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